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15 de maio de 2010


Meu sonho tem boca 
que o digam meus ossos 
tem dois olhos sobre a nuca


e reza todos os dias 
que em todas as horas 
houve um tempo 
sem mentira


meu anjo da guarda é uma puta de maõs compridas 
maquilhagem carregada 
e dá na fruta a puta 
barata desvairada escanzelada 
nas veias em vez de sangue corre-lhe cicuta 
ela ama-me 
pelo menos diz que sim 
e eu sinto o mesmo por ela 
à noite fico à espera que entre pela janela 
conta histórias doidas enquanto me adormece 
e eu sorrio 
cada um tem aquilo que merece 
e bebo as palavras e quase que me engasgo 
são belas perco-me nelas sem me fartar 
sem quase nunca me fartar 
podiamos ficar nisto o resto da noite 
em lugar nenhum 
no meio de um sonho 
no meio de mim 
no meio de ti


bebo as palavras e quase que me engasgo 
são belas perco-me nelas


uma duas três "G"s 
acendemos beatas 
matamos baratas 
e arrancamos o que resta do papel de parede 
vamo-lo rasgando bocado a bocado 
escrevemos frases chungas 
com um calhau caiado 
quatro cinco seis 
cantamos a música dos chulos lá fora 
e dançamos a nossa valsa tão desengonçada 
embebedamo-nos de saliva até irmos ao tapete 
já são oito nove dez 
e estamos fora de combate